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Negócios e Mercado

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SaaS entra, SaaS sai: o que está a alimentar a “SaaSpocalypse”

Agentes de IA e “coding agents” estão a tornar o “build vs buy” mais favorável ao “build”, a pressionar preços e a pôr em causa o modelo “por lugar” do SaaS — com reflexos visíveis no mercado.

Resumo

Uma mensagem de um fundador ao seu investidor — a dizer que estava a substituir toda a equipa de apoio ao cliente por Claude Code, um agente de IA capaz de escrever e implementar software — serviu de sinal para uma mudança maior: ferramentas “default” como as da Salesforce podem já não ser a escolha automática. Investidores citados pela TechCrunch descrevem um cenário em que a barreira para criar software caiu com os agentes de programação, alterando o clássico dilema “comprar ou construir” para “construir” em muito mais casos.

Mas, segundo a peça, o risco não se limita à concorrência direta. A própria lógica de negócio do SaaS é posta em causa quando parte do trabalho deixa de ser feito por pessoas a usar aplicações, e passa a ser feito por um pequeno número de agentes de IA que vão buscar dados e executam tarefas por conta de utilizadores. Num modelo em que muitos fornecedores cobram “por lugar” (por pessoa que acede), menos pessoas a iniciar sessão pode significar menos receita, mesmo que o valor entregue se mantenha.

A notícia liga esta tensão ao nervosismo nos mercados: o receio de obsolescência (“FOBO”, fear of becoming obsolete) e a volatilidade sempre que surgem novas capacidades em IA. Ainda assim, os investidores de venture capital ouvidos não tratam isto como “morte do SaaS”, mas como uma transição para um próximo modelo, em que o software continua necessário — só que com outras regras de produto e de monetização.

Na pratica

Segundo a TechCrunch, há três forças a empurrar o setor ao mesmo tempo.

A primeira é a descida do custo e do tempo para construir software com “coding agents”. Se uma empresa consegue replicar rapidamente uma função central de um produto SaaS, a negociação com o fornecedor muda: ou constrói internamente, ou usa essa alternativa como alavanca para pressionar renovações e preços.

A segunda é a erosão do “per-seat”. O texto descreve um cenário em que os colaboradores deixam de operar diretamente nas ferramentas e passam a pedir ao seu agente de IA para “ir buscar” o que precisam. Se um ou poucos agentes fizerem o trabalho que antes exigia dezenas de utilizadores, o modelo de licenciamento por utilizador perde tração.

A terceira é o alcance crescente das plataformas de IA. A peça refere que ferramentas como Claude Code e o Codex da OpenAI podem replicar não só funções core, mas também add-ons que os fornecedores SaaS vendiam para expandir receita em contas existentes. Ou seja: o “upsell” que sustentava crescimento pode tornar-se mais difícil se a camada de IA fizer parte da stack do cliente, e não do fornecedor.

A notícia dá um exemplo anterior: no final de 2024, a Klarna anunciou que tinha abandonado o CRM principal da Salesforce a favor de um sistema de IA desenvolvido internamente. A leitura, segundo o artigo, é que mais empresas poderão fazer o mesmo — e isso “assusta” os mercados públicos, onde ações de gigantes SaaS como Salesforce e Workday têm estado a cair. O texto menciona ainda um sell-off que retirou quase 1 bilião de dólares em valor de mercado a ações de software e serviços no início de fevereiro, seguido por “mais um bilião” mais tarde no mês.

Contexto

O artigo sugere que parte do movimento nos mercados também reflete uma reavaliação de valorizações. Investidores ouvidos dizem que o SaaS esteve “sobrevalorizado” durante muito tempo e que o crescimento foi impulsionado pela era de juros baixos, agora terminada — o que encarece o financiamento e altera expectativas.

Além disso, a forma como o mercado público avalia SaaS — projetando receita futura — fica mais frágil quando há incerteza sobre o nível de utilização de produtos SaaS daqui a um, cinco anos. A TechCrunch aponta que cada lançamento avançado em IA funciona como um “tremor” no setor, por levantar a hipótese de substituição mais rápida do que o previsto.

A peça usa lançamentos recentes da Anthropic para ilustrar este padrão: quando a empresa lançou Claude Code para cibersegurança, ações relacionadas caíram; quando lançou ferramentas legais no Claude Cowork AI, caiu também o preço do iShares Expanded Tech-Software Sector ETF, um cabaz que inclui empresas de software listadas (o texto cita exemplos como LegalZoom e RELX). Para um investidor citado, isto pode ser “uma mudança estrutural real” e, ao mesmo tempo, uma potencial sobre-reação típica de mercados (“vender primeiro e fazer perguntas depois”).

O texto também nota que ainda não existe evidência suficiente sobre qual será o modelo vencedor “pós-SaaS por lugar”. Algumas empresas de IA estão a cobrar por consumo (uso medido em tokens, com definições que variam por fornecedor). Outras testam “outcome-based pricing”, cobrando com base no desempenho/resultado. A notícia refere a Sierra, startup de IA de Bret Taylor (ex-CEO da Salesforce), como exemplo de concorrência “quase Salesforce”, focada em agentes para apoio ao cliente, e afirma que a empresa chegou a 100 milhões de dólares de ARR em novembro, em menos de dois anos.

Por fim, há implicações na saída para bolsa. Um relatório da Crunchbase citado pela TechCrunch indica que, apesar de sinais de “degelo” do mercado de IPOs noutros setores, não houve — nem se espera que haja — filings de SaaS apoiadas por venture no horizonte. O artigo atribui parte disso à janela de IPO exigente e à volatilidade do sentimento, e nota “rumores” de que OpenAI e Anthropic ponderam IPOs talvez ainda este ano. Ainda assim, investidores defendem que as empresas continuarão a precisar de software “durável” para compliance, auditorias, gestão de workflows e robustez, e que valor de longo prazo se constrói com fundamentos, retenção, margens, orçamentos reais e defensibilidade.

Porque importa

  • Se agentes de IA reduzirem utilizadores humanos ativos, o modelo de preços “por lugar” fica pressionado e pode forçar mudanças de monetização.
  • A facilidade de “construir” alternativas (ou a ameaça credível de o fazer) aumenta o poder de negociação dos clientes em renovações.
  • A volatilidade nos mercados e o congelamento de IPOs para SaaS apoiadas por venture mostram que o tema já está a afetar financiamento e saídas.
  • O vencedor pode não ser “SaaS vs IA”, mas um híbrido com novos modelos (consumo, outcome-based) — ainda sem consenso sobre o que será sustentável.