Microsoft guarda dados em vidro comum durante 10.000 anos
Projeto da Microsoft grava terabytes de informação em vidro de uso diário e promete arquivos digitais que atravessam milénios, com potencial para mudar a forma como os centros de dados guardam memória.
Resumo
Investigadores da Microsoft apresentaram um sistema de armazenamento que grava dados em vidro e foi concebido para durar pelo menos 10.000 anos. A tecnologia foi descrita numa publicação científica recente e é apontada como uma possível solução para o problema de preservar grandes quantidades de informação a longo prazo.
O sistema faz parte da iniciativa Project Silica e utiliza lasers ultrarrápidos para escrever dados em três dimensões dentro de pequenas placas de vidro. Cada peça, com cerca de 12 centímetros de largura e 2 milímetros de espessura, consegue armazenar 4,8 terabytes de dados, equivalente a cerca de dois milhões de livros impressos ou 5.000 filmes em resolução 4K.
A grande novidade é que a equipa passou a usar vidro borossilicato, o mesmo material de algum utensílio de cozinha, em vez do mais caro vidro de sílica fundida usado em versões anteriores. Isto abre a porta a uma produção mais barata sem perder durabilidade, segundo a investigação.
Na prática
O vidro é gravado com um laser de femtossegundos que cria “voxels” — pequenos pontos em três dimensões — no interior da placa. Esses voxels codificam bits de informação que podem depois ser lidos por sistemas óticos e algoritmos de descodificação desenvolvidos pela equipa.
Os testes indicam que as placas conseguem resistir a temperaturas até 290 graus Celsius durante mais de 10.000 anos, o que sugere uma vida útil ainda maior em condições normais. O material também é resistente à água, a impulsos eletromagnéticos e a ambientes extremos, ao contrário de fitas magnéticas e discos rígidos, que se degradam em poucos anos e exigem substituição.
Depois de gravados, os dados não precisam de energia para serem mantidos nem de salas com controlo rigoroso de temperatura e humidade. As placas também não podem ser alteradas: não é possível sobrescrever nem modificar a informação, e o processo de leitura não apaga dados por acidente, o que aumenta a segurança para arquivos sensíveis.
A Microsoft ainda não anunciou um calendário comercial para a tecnologia, mas indica internamente que primeiros pilotos com arquivos governamentais e investigação científica podem começar por volta de 2027. Até lá, os desafios passam por acelerar a escrita, escalar a produção e garantir que o acesso à informação continua simples para utilizadores e organizações.
Limitações
Especialistas externos elogiaram o avanço, mas destacam que há trabalho pela frente para tornar o sistema viável em larga escala. Um comentário científico aponta, por exemplo, a necessidade de melhorar a velocidade de escrita de dados, o que é essencial para volumes típicos de centros de dados.
Também é necessário provar que o fabrico de placas de vidro com esta tecnologia pode ser massificado a custos competitivos. Além disso, será crucial garantir que a leitura dos dados continua simples e acessível, para que arquivos guardados durante séculos possam ser recuperados sem depender de hardware demasiado especializado.
Apesar destes obstáculos, alguns investigadores descrevem o sistema como uma solução credível para proteger registos da civilização humana, em linha com marcos históricos como ossos oraculares ou pergaminhos medievais. Outros sublinham que, pela primeira vez, a tecnologia mostra um sistema completo com potencial para revolucionar a forma como os centros de dados fazem arquivo.
Porque importa
- Pode reduzir o custo e a complexidade de manter arquivos digitais durante séculos ou milénios.
- Ajuda instituições a preservar dados culturais, científicos e governamentais sem migrações constantes de formato.
- Diminui a dependência de infraestruturas que consomem energia de forma contínua para manter dados frios.
- Abre espaço a novas estratégias de segurança, com suportes físicos imutáveis e resistentes a catástrofes.