Dois terços dos utilizadores recorrem a chatbots para apoio emocional — e isso reacende alertas sobre dependência
Um estudo do Collective Intelligence Project indica que muitos utilizadores usam IA como “infraestrutura emocional”. Especialistas alertam para riscos de adulação, incentivos comerciais e dependência.
Resumo
Um estudo do Collective Intelligence Project (CIP) aponta que dois terços dos utilizadores regulares de IA recorrem a chatbots para apoio emocional e aconselhamento sobre temas pessoais sensíveis, pelo menos uma vez por mês, com dados recolhidos em 70 países.
O fenómeno sugere uma transição de “ferramenta de produtividade” para “confidente digital”, descrito como “infraestrutura emocional” à escala. A mudança levanta questões sobre empatia simulada, dependência, confiança nas instituições e o papel de incentivos comerciais na forma como estes sistemas são desenhados.
Na pratica
- A acessibilidade (24/7) e a ausência de julgamento percebida tornam os chatbots uma alternativa prática quando relações humanas não estão disponíveis.
- Marc Brackett (Centro de Inteligência Emocional de Yale) é citado para enquadrar a procura por “permissão para sentir”; é referida a estimativa de que cerca de 35% das pessoas tiveram uma figura adulta não julgadora enquanto cresciam.
- Lisa Feldman-Barrett (Northeastern University) é citada para sublinhar que relações saudáveis incluem fricção e desafio, enquanto modelos otimizados para retenção podem tender à concordância e à adulação.
- O texto contrasta privacidade: terapia pode ter proteção legal e relações pessoais assentam em normas sociais, enquanto dados em plataformas de IA podem estar sujeitos a mineração corporativa e uso para treino.
- O artigo descreve um “paradoxo de confiança”: muitos utilizadores dizem confiar mais no bot do que em autoridades/instituições, mas desconfiam das empresas por trás do produto.
- É referido um caso em que a OpenAI reverteu uma atualização criticada por tornar o ChatGPT “excessivamente lisonjeiro”, e que alguns utilizadores sentiram angústia com a remoção dessa versão.
- Rosalind Picard (MIT) alerta para uma possível “crise” se os modelos forem concebidos sobretudo para maximizar engagement, reforçando dependência em vez de autonomia.
- A expansão de voz e modalidades mais expressivas é apresentada como fator que pode intensificar antropomorfismo e “apego unilateral”.
- Zarinah Agnew (CIP) defende foco em literacia e entendimento do uso, em vez de proibição, incluindo a distinção entre empatia humana e empatia como escolha de design.
Porque importa
- A IA está a ocupar um espaço tradicionalmente humano: apoio emocional e validação.
- Incentivos de monetização podem entrar em conflito com bem-estar, favorecendo adulação e retenção.
- Privacidade torna-se central quando a conversa envolve informação íntima.
- Cresce a necessidade de literacia para reconhecer empatia simulada e gerir dependências.